
A mifepristona, um medicamento utilizado na interrupção da gravidez e em algumas doenças, demonstrou ser eficaz no tratamento de um tipo de cancro da mama. A conclusão é de um grupo de investigadores, do qual faz parte Luisa Helguero, investigadora no iBiMED – Instituto de Biomedicina da Universidade de Aveiro (UA). O estudo deu origem a um artigo publicado na Clinical Cancer Research, uma prestigiada revista dedicada a investigações inovadoras na área da oncologia.
O artigo agora publicado descreve um ensaio clínico onde a droga mifepristona foi administrada diariamente a mulheres diagnosticadas com um tipo específico de cancro da mama por um período de 14 dias. O que se verificou no final destes dias, explica Luisa Helguero, é que 70% (14 num total de 20) das pacientes tratadas com este medicamento reduziram em mais de 30% os níveis do marcador Ki67, um marcador utilizado para prognósticos de cancro. Esta redução, explica, traduziu-se “numa diminuição da taxa de crescimento tumoral”. A investigadora acrescenta que, além disso, o medicamento ajudou a que o tumor diminuísse de tamanho em cerca de 20% em algumas das pacientes testadas. A nível molecular foi possível perceber que a “mifepristona atuou nos tumores”, já que se verificaram alterações nos mecanismos que se sabe que promovem o crescimento do tumor.
Luisa Helguero refere que a “mifepristona é um medicamento sintético que inibe a ação da progesterona”, uma hormona sexual feminina produzida naturalmente pelo organismo e que está, em alguns casos, associada ao desenvolvimento do tumor mamário. Atualmente este medicamento é utilizado para interromper a gravidez e, em alguns casos, para tratar doenças como endometriose e miomas uterinos. A investigadora adianta que o uso da mifepristona se torna interessante por já estar aprovado para uso clínico, dando aos investigadores a possibilidade de investigar um “medicamento para o qual o efeito no corpo humano está bem caracterizado.”
A novidade deste estudo, alerta Luisa Helguero, é que o ensaio clínico foi realizado em pacientes sem qualquer tipo de tratamento prévio e com uma quantidade maior do recetor de progesterona na isoforma A (PR A) em comparação com a PR B, a outra isoforma, contrariamente ao que tem sido feito até então.
Sobre a eficácia deste medicamento na terapia de outros tipos de cancro, Luisa Helguero explica que “o tratamento com mifepristona só pode ser considerado como uma possibilidade em casos em que o crescimento tumoral depende da progesterona”, uma vez que o medicamento tem a ação específica de bloquear esta hormona. Helguero alerta ainda que esta droga será mais efetiva em tumores com maiores quantidades de PR A do que PR B.
Uma vez que os resultados foram positivos e revelaram a inibição do crescimento tumoral, os investigadores estudaram também como atua a mifepristona, analisando as biópsias obtidas antes e depois do tratamento. A caracterização das proteínas tumorais ficou a cargo do laboratório de Luisa Helguero, situado no Departamento de Ciências Médicas da UA. O estudo deu origem a um artigo científico publicado na prestigiada Clinical Cancer Research, tendo recebido destaque editorial e sido o selecionado para ilustrar a capa da revista.
Esta é uma investigação que vem na sequência de vários trabalhos realizados no Instituto de Biologia e Medicina Experimental de Buenos Aires, com o qual Luisa Helguero tem colaborado. Atualmente a equipa continua a analisar amostras deste ensaio clínico, com o objetivo de melhorar a identificação das pacientes que poderão beneficiar do tratamento com mifepristona.
O artigo completo pode ser lido online.
Fonte: https://www.ua.pt


