Largar a chapinha é mais que uma atitude estética; tornou-se um ato político-social – UFPE

A consideração está na dissertação de Anita Soares, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE (PPGS).

Cabelos crespos e cacheados nem sempre foram sinônimo de beleza na sociedade, mas processos como o de transição capilar na contemporaneidade ressignificam não só o cabelo, como, também, a estética negra. A partir, principalmente, deste marco, em que cabelos com texturas mais crespas passam a ser assumidos e valorizados, a socióloga Anita Maria Pequeno Soares analisa que, ao largarem as chapinhas e alisamentos, as mulheres negras atuam além de sua autoestima e identidade, e conclui: “Por se tratar de uma expressão, a atitude não pode ser dissociada do seu carátersocial e político, uma vez que o cabelo crespo contempla uma forte dimensão simbólica, como sinal de inferioridade em uma sociedade racista”.

Na dissertação “Cabelo importa: os significados do cabelo crespo/cacheado para mulheres negras que passaram pela transição capilar”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE (PPGS) e orientada pela professora Liana Lewis, Anita Soares identifica essa relação – cabelo-autoestima-identidade – não só como a valorização de uma negritude ou da descendência africana, mas como uma rejeição direta de beleza feminina, majoritariamente branca. “A negação da beleza negra alude o período da escravidão. E o cabelo foi e continua sendo, juntamente à cor da pele, sinais que destacam a negritude; não acidentalmente, o cabelo surge como uma questão desde a infância para as meninas negras de cabelo crespo, tendo como única alternativa o alisamento”, explica.

A dissertação aponta as razões que tornam o cabelo importante na vida das mulheres negras de cabelo crespo. “Os significados do cabelo perpassam a negociação de identidades políticas complexas marcadas pela interseccionalidade entre raça e gênero”. Segundo a autora, a autoestima estava condicionada ao cabelo liso e a assunções de branquitude, que exigiam um grande esforço de manipulação estética. Na pesquisa, Anita relata que a consequência dessa lógica excludente é “interiorizada e marca profundamente a autoestima delas (mulheres negras), pois suas características corporais são subjugadas à condição de menor prestígio e valor estético”.

Para entender melhor a dinâmica que coloca o cabelo crespo num status de “ruim” e o significado disso na subjetividade das mulheres negras, Anita faz uma cronologia da história da estética negra desde a colonização até o processo da transição capilar; passando por questões que se relacionam ao movimento “black is beautiful”, o “black power” e também o feminismo negro brasileiro. Segundo a autora, “a escolha de trabalhar sobre um tema contemporâneo e fortemente significativo para a vida de milhares de mulheres negras busca mostrar uma realidade tão negligenciada além de alargar a compreensão e a importância do feminismo negro”.

Metodologia

A metodologia utilizada neste trabalho foi a entrevista, norteadas por um tópico-guia e pela pergunta “Quais são as suas primeiras lembranças sobre quando começou a alisar o cabelo?”, a fim de compreender o significado do cabelo crespo/cacheado para essas mulheres. A partir desse levantamento, a autora analisou o discurso das entrevistadas buscando compreender também “os efeitos sociais do discurso do racismo na vida das minhas entrevistas”. Baseada nisso, Anita percebeu que o cabelo crespo torna-se uma questão na vida das meninas negras muito cedo, pois a maioria das entrevistadas lembra de alisar os cabelos ainda na infância. Os danos causados por esse ‘ritual de beleza’, como corte no couro cabeludo, feridas e afins, também são comentados pela socióloga.

Os sujeitos da pesquisa foram mulheres negras, com média de 25 anos, com exceção de uma entrevistada, que tinha 48 anos e vivenciou outro contexto, que passaram pela transição capilar, em certa medida. De acordo com a pesquisa, escolher apenas mulheres que passaram pela transição direciona o discurso e, segundo um dos autores utilizados para embasar o estudo, “as mulheres que alisam o cabelo tendem a discordar mais do ‘self-hatred’, ideia segundo a qual o alisamento seria reflexo de uma autoestima baixa das mulheres negras e do consequente ‘ódio a si mesmas’; enquanto as mulheres que usam o cabelo ‘natural’ tendem mais a concordar com essa ideia”.

Já nos casos de transição capilar, Anita define a transformação como “um processo rumo ao conhecimento de uma parte desconhecida”, pois a maioria das mulheres entrevistadas passaram pelo processo de alisamento sem antes conhecer o cabelo natural. Por fim, a mestranda analisa a importância do “big chop” para essa mulheres. O ato de cortar o cabelo muito curto “significou uma mudança muito além do cabelo”, é uma luta política por reconhecimento.

Fonte: https://www.ufpe.br

Más artículos de la Universidad

Suscríbete al Grupo Tordesillas​

Introduce tu email y recibirás las novedades del Grupo Tordesillas mensualmente en tu correo electrónico.

Scroll al inicio
Política de Privacidad

Esta web utiliza cookies para que podamos ofrecerte la mejor experiencia de usuario posible.

La información de las cookies se almacena en tu navegador y realiza funciones tales como reconocerte cuando vuelves a nuestra web o ayudarnos a comprender qué secciones de la web encuentras más interesantes y útiles.

Más información en nuestra política de privacidad.

Cookies técnicas necesarias

Las cookies técnicas necesarias tienen que activarse siempre para que podamos guardar tus preferencias de ajustes de cookies. Básicamente, esta web no funcionará bien si no están activas.

Estas cookies son:

  • Comprobación de inicio de sesión.
  • Cookies de seguridad imprescindibles.
  • Saber si ya has aprobado/rechazado las cookies.
Cookies de Terceros

Este sitio web utiliza las siguientes cookies:

  • Google Analytics: se utiliza para enviar datos a Google Analytics sobre el dispositivo del visitante y su comportamiento en el sitio web de despachotres.com, de forma anónima. Más información: https://policies.google.com/privacy