
Estudo internacional de revisão com participação da Unesp aponta desafios para desenvolver novos medicamentos e reforça necessidade de investimentos em ciência e cooperação internacional.
Durante boa parte do século XX, os antibióticos transformaram a medicina. Infecções que antes levavam milhares de pessoas à morte passaram a ser tratadas em poucos dias. Esse cenário vem se modificando e a resistência bacteriana já é uma das principais causas de morte no mundo, superando o HIV e a malária em fatalidades diretas.
Uma revisão publicada na Chemical Society Reviews, uma das revistas científicas mais prestigiadas da área de química, faz justamente esse alerta. Liderado pelo pesquisador Guilherme F. S. Fernandes, egresso da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, e desenvolvido em parceria com o professor Jean Leandro dos Santos, da FCF, o estudo reúne um panorama dos principais desafios para o desenvolvimento de novos antibióticos e aponta caminhos que podem mudar esse cenário.
“O problema não é falta de pesquisa. Todos os anos são descritas centenas de compostos com atividade contra bactérias. O desafio é que uma parcela muito pequena consegue demonstrar eficácia em modelos animais e avançar para as próximas etapas do desenvolvimento”, explica Guilherme, que atualmente é pesquisador sênior do Francis Crick Institute, no Reino Unido.
Para o professor Jean, o diferencial do trabalho está na profundidade da análise. Mais do que compilar estudos publicados, a equipe mapeou de forma criteriosa todas as etapas de desenvolvimento, desde a descoberta de moléculas promissoras até os testes pré-clínicos. “Não é uma revisão tradicional. Fizemos um diagnóstico detalhado do que está avançando na literatura e de onde a ciência precisa mirar nos próximos anos”, destaca.
Cenário atual
Em contraste com o período áureo retratado acima, as últimas décadas têm sido marcadas por uma severa escassez de novas opções terapêuticas. Hoje, existem apenas 97 agentes em desenvolvimento clínico, e uma pequena parcela deles é direcionada aos patógenos classificados como de prioridade crítica pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, nos últimos 60 anos, somente cinco novas classes de antibióticos chegaram ao uso clínico.
A revisão mostrou que esse apagão científico é resultado do descompasso entre as necessidades da saúde pública e o interesse comercial da indústria farmacêutica, além do próprio desafio científico de criar moléculas capazes de superar mecanismos cada vez mais sofisticados de resistência desenvolvidos pelas bactérias.
“Quando a resistência se estabelece, os antibióticos que atuam por vias já conhecidas tornam-se mais suscetíveis a esses recursos e podem deixar de ser eficazes”, afirma o docente da FCF-Unesp.
Segundo os pesquisadores, diferentemente de medicamentos destinados ao tratamento de doenças crônicas, os antibióticos costumam oferecer menor retorno financeiro à indústria farmacêutica. Seu desenvolvimento exige investimentos elevados e um longo período de pesquisa, enquanto o tratamento, usualmente, dura poucos dias. Além disso, o surgimento de cepas resistentes pode reduzir a vida útil desses medicamentos, tornando-os obsoletos em um intervalo relativamente curto.
Guilherme também ressalta que ainda há uma lacuna teórica sobre como os antibióticos conseguem se acumular no interior das bactérias. Apesar dos avanços na área, esse ainda é um processo pouco conhecido.
“Falta-nos um conhecimento mais profundo sobre como ocorre o acúmulo dos antibióticos dentro da bactéria, ou seja, o que faz um composto antimicrobiano permanecer pelo tempo necessário para eliminá-la. Por isso, entender quais propriedades determinam esse acúmulo é uma das grandes questões que a ciência ainda busca responder”, revela.
Apesar do alerta, há espaço para otimismo
Nesse contexto, universidades e instituições públicas de pesquisa assumem um papel estratégico, dizem os pesquisadores. São elas que concentram grande parte das descobertas de novas moléculas e desenvolvem conhecimentos que podem servir de base para futuros medicamentos. Os autores defendem que ampliar os investimentos em ciência e fortalecer a colaboração entre universidades, governos e setor produtivo será fundamental para acelerar a inovação e enfrentar a resistência bacteriana nas próximas décadas.
“Nossa revisão abrange os últimos cinco anos, quando identificamos 129 compostos que demonstraram eficácia em estudos in vivo. É claro que ainda estão distantes de se tornarem um produto, mas apresentam um potencial inovador bastante significativo, sobretudo por explorarem novos alvos terapêuticos”, destaca Guilherme.
Jean lembra que o Laboratório de Química Farmacêutica Medicinal da FCF-Unesp acumula 20 patentes depositadas em parceria com a Agência Unesp de Inovação (AUIn), resultado de pesquisas desenvolvidas ao longo dos anos.
“A universidade tem um papel importante tanto na geração de conhecimento quanto na produção de patentes e na transferência de tecnologia”, ressalta.
Por fim, o professor reforça que o sucesso contra as superbactérias também depende do uso responsável pela população. Ele alerta que a automedicação ou o reaproveitamento de sobras são altamente perigosos.
“Não posso pegar o antibiótico que sobrou do vizinho ou de um parente e tomar porque estou com um sintoma parecido. Esse tipo de atitude acelera a seleção de bactérias resistentes”, conclui.
Fonte: https://www2.unesp.br


