Ciência UFPR: “Entramos na era universal de doadores de medula óssea”, diz imunogeneticista do CHC-UFPR

Único brasileiro a assinar novo consenso europeu sobre transplante de medula óssea, imunogeneticista do CHC-UFPR explica como avanços na imunologia ampliaram as possibilidades de encontrar doadores

Há 26 anos, a novela Laços de Família, da TV Globo, contou a história de uma mãe que engravidava para encontrar um doador de medula óssea compatível para a filha, diagnosticada com leucemia. A trama comoveu o Brasil, e o número de doadores cadastrados no Registro Nacional de Doadores de Medula (REDOME) passou de 20 para 900 por mês entre novembro de 2000 e janeiro de 2001. 

Mas, desde então, a ciência vem ampliando possibilidades de tratamento e, hoje, a história da protagonista poderia ser outra. Em junho deste ano, a Sociedade Europeia de Transplante de Sangue e Medula Óssea (European Society for Blood and Marrow Transplantation, EBMT) publicou um novo consenso. Entre os avanços mencionados, está a possibilidade de realizar transplantes com doadores parcialmente compatíveis, graças a estratégias para controlar a resposta imunológica. 

O transplante de medula óssea (TMO), também chamado de transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH), é um procedimento no qual células-tronco capazes de produzir as células do sangue são infundidas no paciente. Elas podem ser coletadas da própria medula óssea, do sangue ou do sangue de cordão umbilical. 

Antes da infusão, o paciente recebe um tratamento que reduz sua produção de células sanguíneas e prepara seu sistema imunológico para receber as células do doador. Depois de infundidas, elas se instalam na medula óssea e passam a produzir novas células do sangue.

Como as células vêm de outra pessoa, é preciso avaliar a compatibilidade entre doador e receptor. Um dos aspectos analisados é o sistema HLA (Human Leukocyte Antigen), um conjunto de moléculas que funciona como uma espécie de identificação das células para o sistema imunológico. Quanto mais semelhantes forem os HLA do doador e do receptor, menor tende a ser o risco de algumas complicações. Por muito tempo, isso fez com que a falta de um doador com alta compatibilidade fosse uma limitação.

Agora, estratégias já permitem controlar melhor a resposta imunológica depois que as células do doador são infundidas. Com isso, é possível realizar transplantes mesmo quando doador e receptor não são totalmente compatíveis, como nos transplantes haploidênticos, em que há o compartilhamento de metade dos principais marcadores HLA. 

Assim, segundo o documento da EBMT, fatores como a idade do doador e o tempo até o procedimento podem pesar até mais na decisão do que a compatibilidade genética. 

O imunogeneticista e pesquisador Alberto Cardoso Martins Lima, do Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), é o único brasileiro entre os autores do consenso. Especialista em HLA e histocompatibilidade aplicada ao transplante de células-tronco hematopoéticas, ele acumula experiência em pesquisas científicas, elaboração de diretrizes e formação de profissionais na área.

Em entrevista à Ciência UFPR, Lima analisa as mudanças no transplante de medula óssea e a chamada era universal dos doadores, em que a busca por um doador não depende mais de uma compatibilidade perfeita.

Fonte: https://ufpr.br/ciencia-ufpr-entramos-na-era-universal-de-doadores-de-medula-ossea-diz-imunogeneticista-do-chc-ufpr/

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