{"id":1604,"date":"2016-05-10T08:21:05","date_gmt":"2016-05-10T06:21:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.grupotordesillas.net\/pt\/?p=1604"},"modified":"2016-05-06T13:46:06","modified_gmt":"2016-05-06T11:46:06","slug":"ufscar-dimensionamento-tragedia-ambiental-rio-doce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.grupotordesillas.net\/pt\/blog\/ufscar-dimensionamento-tragedia-ambiental-rio-doce\/","title":{"rendered":"Pesquisadores da UFSCar integram esfor\u00e7o nacional para dimensionamento da trag\u00e9dia ambiental do Rio Doce"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1603\" src=\"https:\/\/www.grupotordesillas.net\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/ufscar-dimensionamento-tragedia-ambiental-rio-doce.jpg\" alt=\"ufscar-dimensionamento-tragedia-ambiental-rio-doce\" width=\"1000\" height=\"563\" \/><\/p>\n<p>5 de novembro de 2015. Rio Doce. Mariana. Minas Gerais. Brasil. <strong>63 milh\u00f5es de metro c\u00fabicos de lama com res\u00edduos t\u00f3xicos s\u00e3o despejados no leito do rio<\/strong>, a partir do rompimento de barragem da mineradora Samarco, destruindo povoados inteiros com danos sociais, ambientais e econ\u00f4micos ainda incalcul\u00e1veis. O estouro da Barragem do Fund\u00e3o, em Mariana (MG), de propriedade da Samarco Minera\u00e7\u00e3o S.A., uma\u00a0<em>joint venture<\/em>\u00a0entre as gigantes do min\u00e9rio Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, devastou matas ciliares, soterrou casas e seus moradores, impactou na fauna e na flora da regi\u00e3o e contaminou a \u00e1gua. Matou um rio com quase mil quil\u00f4metros de extens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Os impactos ambientais<\/strong> &#8211; principalmente no que se refere \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e o comprometimento das comunidades aqu\u00e1ticas &#8211; dessa que \u00e9 considerada <strong>uma das maiores trag\u00e9dias naturais da hist\u00f3ria do Pa\u00eds<\/strong> s\u00e3o tema de estudo desenvolvido por um grupo de pesquisadores do Centro de Ci\u00eancias Humanas e Biol\u00f3gicas (CCHB) do Campus Sorocaba da UFSCar, entre eles o professor Andr\u00e9 Cordeiro, do Departamento de Biologia (DBio). Ap\u00f3s a cat\u00e1strofe, Cordeiro j\u00e1 esteve por duas vezes na regi\u00e3o colhendo amostras de \u00e1gua desde antes do local do derramamento at\u00e9 a foz do Rio Doce, j\u00e1 no estado do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>\u201c<em>Em dezembro de 2015, um m\u00eas ap\u00f3s a trag\u00e9dia, percorremos os mil quil\u00f4metros de extens\u00e3o do Rio Doce, desde a cabeceira at\u00e9 a sua foz, e <strong>o cen\u00e1rio \u00e9 compar\u00e1vel aos de guerra<\/strong>. Pelo menos tr\u00eas povoados com cerca de 900 habitantes desapareceram engolidos pela lama, todos os pescadores est\u00e3o sem trabalho e os esfor\u00e7os de reconstru\u00e7\u00e3o s\u00e3o lentos. Isso para ficarmos nos impactos sociais mais evidentes<\/em>\u201d, relata o professor da UFSCar.<\/p>\n<p>Nessa primeira visita, foram coletadas amostras de \u00e1gua de 17 pontos diferentes do rio e os resultados das an\u00e1lises iniciais n\u00e3o s\u00e3o nada animadores. \u201c<em>Primeiro, antes dos resultados das an\u00e1lises das amostras, j\u00e1 sab\u00edamos que toda a popula\u00e7\u00e3o de peixe havia sido extinta; n\u00e3o h\u00e1 mais peixe em toda a extens\u00e3o do rio e a pesca est\u00e1 proibida. Al\u00e9m disso, j\u00e1 pudemos constatar que a comunidade bent\u00f4nica [micro-organismos que vivem no fundo do rio] tamb\u00e9m sofreu enorme impacto. S\u00f3 a partir do meio do rio, algumas esp\u00e9cies, daquelas mais resistentes, foram encontradas<\/em>\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>De acordo com estudiosos da \u00e1rea, entre as comunidades que habitam os ecossistemas aqu\u00e1ticos, a bent\u00f4nica \u00e9 uma das mais diversificadas, pois nela s\u00e3o encontradas esp\u00e9cies de diversos filos do reino animal. Esses organismos t\u00eam recebido maior aten\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas, devido \u00e0 sua importante participa\u00e7\u00e3o nos processos ecol\u00f3gicos, particularmente no fluxo de energia e na ciclagem de nutrientes nos sistemas aqu\u00e1ticos. Por exemplo, eles desempenham papel na troca de f\u00f3sforo e nitrog\u00eanio entre o sedimento e a \u00e1gua; e por meio da atividade de escava\u00e7\u00e3o e da decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica, reduzem o tamanho das part\u00edculas, contribuindo para a libera\u00e7\u00e3o de nutrientes do sedimento para a coluna d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>A lama com res\u00edduos t\u00f3xicos <strong>afetou tamb\u00e9m os micro-organismos que vivem boiando na superf\u00edcie do rio<\/strong> \u2013 os chamados fito e zoopl\u00e2ncton. \u201c<em>Outra comunidade completamente destru\u00edda; e como esses micro-organismos s\u00e3o a base da cadeia alimentar aqu\u00e1tica, os efeitos de sua destrui\u00e7\u00e3o afetam todo o ecossistema<\/em>\u201d, lamenta o pesquisador. \u201c<em>Identificamos na \u00e1gua e nos organismos vivos uma concentra\u00e7\u00e3o de metais t\u00f3xicos 400 vezes maior que o recomendado. Assim, \u00e9 poss\u00edvel ter uma ideia de quanto a biodiversidade foi atingida<\/em>\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>A segunda visita de Cordeiro ao Rio Doce foi realizada na primeira semana do m\u00eas de abril e resultou na coleta de amostras de \u00e1gua em 20 pontos diferentes. Os dados das an\u00e1lises, no entanto, ainda n\u00e3o foram sistematizados. \u201c<em>Considerando apenas nossa percep\u00e7\u00e3o ambiental, foi poss\u00edvel notar alguma melhora na transpar\u00eancia da \u00e1gua em determinados pontos que j\u00e1 recebem maior penetra\u00e7\u00e3o de luz. Por\u00e9m, n\u00e3o sabemos mensurar se houve impactos positivos tamb\u00e9m nas comunidades de seres vivos que habitavam a regi\u00e3o. O que temos convic\u00e7\u00e3o \u00e9 que jamais o rio voltar\u00e1 a ser como antes; pode haver alguma melhora, mas os danos referentes \u00e0 pavimenta\u00e7\u00e3o do leito do rio, perda da biodiversidade, redu\u00e7\u00e3o da fertilidade, contamina\u00e7\u00e3o do ambiente e do len\u00e7ol, s\u00e3o severos e nunca ser\u00e3o revertidos por completo<\/em>\u201d, lamenta Cordeiro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa triste constata\u00e7\u00e3o, a trag\u00e9dia tem outras faces alarmantes. Ao longo da extens\u00e3o do rio, existem 41 cidades (sem contar vilarejos e povoados) e, desse total, 20 usavam a \u00e1gua do Rio Doce para abastecimento p\u00fablico. \u00c1gua que, hoje, est\u00e1 100% impr\u00f3pria para uso. O problema de abastecimento est\u00e1 longe de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o. Grande parte da lama derramada acumulou-se nas margens do rio e, em per\u00edodo de fortes chuvas, os dejetos voltar\u00e3o a invadir o leito. \u201cH\u00e1 muita lama para ir para dentro do rio por muitos anos\u201d, alerta o pesquisador. A cidade de Reg\u00eancia (ES), onde est\u00e1 a foz do Rio Doce, viu seu potencial tur\u00edstico desaparecer; os surfistas sumiram e praticamente todas as pousadas da cidade fecharam as portas. \u201cS\u00e3o perdas de toda ordem que levar\u00e3o d\u00e9cadas para serem, ao menos, minimizadas\u201d, finaliza o professor.<\/p>\n<h2><strong>Grupo GIAIA<\/strong><\/h2>\n<p>Os estudos do professor Cordeiro integram os esfor\u00e7os de pesquisa do Grupo Independente de Avalia\u00e7\u00e3o do Impacto Ambiental (GIAIA), um coletivo cient\u00edfico-cidad\u00e3o que se organizou pela Internet para executar uma an\u00e1lise colaborativa dos impactos ambientais resultantes do rompimento da barragem de rejeitos de responsabilidade da Samarco.<\/p>\n<p>O grupo foi formado diante do fato de que as primeiras informa\u00e7\u00f5es veiculadas sobre a toxicidade dos rejeitos carreados para os rios da bacia do Rio Doce eram conflitantes. A partir disso, consolidou-se a ideia da cria\u00e7\u00e3o de um grupo aut\u00f4nomo de pesquisadores para realiza\u00e7\u00e3o de uma avalia\u00e7\u00e3o, independente de influ\u00eancias financeiras e pol\u00edticas, dos impactos ambientais decorrentes do incidente. Al\u00e9m da avalia\u00e7\u00e3o independente, ampla e interdisciplinar, baseada nos princ\u00edpios da \u00e9tica e do rigor cient\u00edfico, o projeto criou uma plataforma aberta para o compartilhamento dos dados e resultados das pesquisas.<\/p>\n<p>O objetivo do GIAIA \u00e9 produzir estudos dedicados \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o, documenta\u00e7\u00e3o e quantifica\u00e7\u00e3o de danos causados pelo rompimento da barragem, colocando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da sociedade, de forma clara e transparente, informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que possam servir de subs\u00eddios para processos judiciais; auxiliar na valora\u00e7\u00e3o dos impactos ambientais; auxiliar na defini\u00e7\u00e3o de medidas de recupera\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o ambiental; e contribuir com o debate e aprimoramento dos processos de avalia\u00e7\u00e3o de impacto ambiental e de projetos (licenciamento ambiental).<\/p>\n<p>Atualmente, o GIAIA, que agrega pesquisadores de diferentes universidades e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa do Brasil, conta com os seguintes grupos de trabalho, no esfor\u00e7o de produzir conhecimento cient\u00edfico sobre a trag\u00e9dia do Rio Doce: \u00c1guas e Comunidades Aqu\u00e1ticas; An\u00e1lises Geoqu\u00edmicas e Toxicol\u00f3gicas; Base cartogr\u00e1fica; Bioinform\u00e1tica; Dimens\u00f5es Humanas e Quest\u00f5es Ambientais Associadas; Flora; Herpetologia (estudo dos r\u00e9pteis e anf\u00edbios); Ictiofauna (conjunto de peixes da regi\u00e3o); Invertebrados terrestres; Mastozoologia (estudo dos mam\u00edferos); Microbiologia; Ornitologia (estudo das aves); e Documenta\u00e7\u00e3o sobre o Licenciamento Ambiental. \u201c<em>Assim, produzimos, disseminamos e valorizamos o conhecimento cient\u00edfico, no sentido de empoderar o cidad\u00e3o, estimular o pensamento cr\u00edtico e fortalecer outros atores da sociedade para o processo de discuss\u00e3o e tomada de decis\u00e3o relativa ao desastre socioambiental do Rio Doce<\/em>\u201d, conclui o professor da UFSCar. Todos os estudos, an\u00e1lises e resultados j\u00e1 desenvolvidos pelo GIAIA est\u00e3o dispon\u00edveis no site\u00a0<u><a href=\"http:\/\/giaia.eco.br\/\" target=\"_blank\">giaia.eco.br<\/a><\/u>.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www2.ufscar.br\/servicos\/noticias.php?idNot=8461\" target=\"_blank\">http:\/\/www2.ufscar.br\/<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>5 de novembro de 2015. Rio Doce. Mariana. Minas Gerais. Brasil. 63 milh\u00f5es de metro c\u00fabicos de lama com res\u00edduos t\u00f3xicos s\u00e3o despejados no leito do rio, a partir do rompimento de barragem da mineradora Samarco, destruindo povoados inteiros com danos sociais, ambientais e econ\u00f4micos ainda incalcul\u00e1veis. 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