Desenvolvido na UnB, unicórnio brasileiro tem potencial para revolucionar agronegócio

Krilltech, empresa especializada em nanotecnologia, já está avaliada em mais de R$ 1 bilhão. Iniciativa aposta na arbolina como biofertilizante do futuro.

Uma tecnologia inspirada na natureza, em escala infinitamente pequena, mas com potencial de revolucionar a agroindústria brasileira e até mundial. Essa é a arbolina, biofertilizante nanotecnológico que motivou a criação da Krilltech – empresa de tecnologia no ramo do agronegócio (AgTech) –, originada como startup na Universidade de Brasília, por meio de parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Desenvolvido no Instituto de Química (IQ) da UnB por pesquisadores sócios da empresa, o produto é inovador em todos os seus aspectos, pois é puro, atóxico, não bioacumulável e luminescente, sendo capaz de enriquecer alimentos com micro e macro nutrientes e aumentar as produções de diversas culturas. A arbolina está presente na linha de produtos Arbolin da Krilltech, que apresenta soluções inovadoras com efeito biofertilizante e bioestimulante. A pesquisa que originou a nanotecnologia foi divulgada na página UnBCiência, no ano passado.

>> Relembre: UnB faz biofertilizante ‘do futuro’

Devido a sua tecnologia revolucionária, a Krilltech foi considerada pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB) como potencial unicórnio brasileiro, termo criado pela investidora Aileen Lee, do fundo americano Cowboy Ventures, para descrever as startups que conseguem atingir a marca de R$ 1 bilhão em avaliação de mercado.

Um dos responsáveis pela formulação da arbolina, o pesquisador do IQ Marcelo Oliveira Rodrigues conta que todo o processo foi muito rápido, tendo iniciado em 2018, quando eles apresentaram a empresa ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Entre 2018 e 2020, o docente esteve em missão científica na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), onde desenvolveu todo processo de escalonamento e de preparação da AgTech.

Neste ano, a OEB lançou estudo de impacto econômico da tecnologia no Produto Interno Bruto (PIB), mensurado em 2%. “O professor Manuel Garcia, da Universidade de São Paulo, demonstra no parecer que o impacto dessa tecnologia pode chegar a 10% do PIB da agricultura, na ordem de R$ 150 bilhões”, informa.

A KRILLTECH – Segundo Marcelo Rodrigues, o embrião da empresa surgiu em 2012, quando a equipe do IQ trabalhava com nanotecnologia aplicada à farmácia: “Com o know–how que adquirimos, em 2016, já percebia que existia um potencial muito grande do protótipo que estávamos criando virar realmente um produto diferenciado no mercado”. 

Foi em contato com o pesquisador da Embrapa Hortaliças Juscimar da Silva que aproveitaram a expertise e uniram forças para aplicar o conhecimento em nanopartícula na agricultura, utilizando essa mesma abordagem.

Também participaram desse projeto os professores da UnB Brenno Amaro, do IQ; Jader Busato, da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária (FAV); e Marcelo Henrique Sousa, da Faculdade UnB Ceilândia (FCE); além de Daniel Zandonadi, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Quando fomos desenvolver o produto, nós escolhemos uma proteína-alvo dentro do programa de biometabolismo, trabalhando na parte de funcionalização de superfícies, grupos funcionais de superfícies, o que é exatamente o diferencial. Ao fazer os testes na Embrapa, vimos que tínhamos alcançado resultados satisfatórios e realmente inovadores”, detalha.

Com a maturidade da tecnologia, a Krilltech foi consolidada, e a partir de 2019 já se tinham todos os parâmetros para fazer o escalonamento do processo. A empresa reúne 18 pessoas, entre os professores, que são os sócios do empreendimento, e ex-alunos de doutorado que participaram das pesquisas desenvolvidas na Universidade. Atualmente, conta com unidade fabril na Bahia, escritório em São Paulo e laboratório em Brasília.

SUSTENTABILIDADE – Por se tratar de uma nanopartícula que funciona como hormônio vegetal, a arbolina mimetiza hormônios naturalmente encontrados na natureza. “A maior parte dela, cerca de 70%, é formada de carbono orgânico, sendo a sua base carbono, oxigênio e nitrogênio; sendo voltada principalmente para aplicação na agricultura por meio de pulverizações foliares em hortaliças, soja, trigo, milho, algodão, feijão e em qualquer outra espécie cultivada. Assim, ela consegue interagir com a proteína-alvo, sem necessidade de uma quantidade grande de produto. Basta uma pequena porção para ativar toda a fisiologia da planta”, explica o pesquisador da UnB.

“Em situações de mudanças climáticas, essa proteína ajuda a planta a se gerenciar e autorregular. Numa condição de estresse hídrico ou causado por produto químico defensivo, por exemplo, melhoramos seu metabolismo, possibilitando que determinada cultura absorva nutrientes e aproveite melhor o adubo que está no solo”, afirma.

Marcelo Rodrigues aponta que, a partir do melhoramento genético, o biofertilizante faz com que a planta aproveite esse potencial para aumentar sua produtividade. Em função da capacidade de melhorar o desempenho de determinada cultura mesmo em condições extremas, a inovação abre portas para redução do impacto ambiental.

As vantagens não param por aí: “nós aproveitamos toda a nossa experiência com tecnologia aplicada a fármacos, expertise do grupo da área de fisiologia ambiental e nutrição, para desenvolver algo bem focado e inovador”. Outros produtos disponíveis no mercado são constituídos de uma mistura de vários compostos de micronutrientes, trato de microalgas, aminoácidos que, no final, não permitem saber o que está acontecendo dentro da planta.

“No nosso caso, ao contrário, sabemos exatamente qual proteína está sendo ativada, as reações bioquímicas que estão acontecendo e os genes que estão sendo expressados. Então, temos um produto de altíssimo valor agregado”, assegura. Um dos diferenciais é a alta capacidade produtiva que a fábrica da Krilltech possui: para se ter uma ideia, as doses desenvolvidas são de 100 mg por litro. “Hoje, precisamos de meio litro para cobrir 1 hectare de terra, com custo extremamente competitivo, pois toda a matéria prima é nacional”, alega.

Os equipamentos também foram montados e adaptados a partir de materiais já encontrados na indústria. “Nós temos uma tecnologia 100% brasileira; com isso, o preço do nosso produto não está lastreado em dólar e podemos oferecer tanto para o produtor de commodities quanto para o pequeno agricultor”, defende Marcelo Rodrigues.

A inovação também está presente no processo de produção, pois não são gerados resíduos líquido e sólido, e a emissão de gases é muito baixa, sem uso de agentes tóxicos. “Algo que temos muito orgulho é que 90% da nossa linha principal é de fonte renovável. E também há perspectiva de uma nova linha com certificação para agricultura orgânica, sendo totalmente renovável”, comenta.

IMPACTO ECONÔMICO – Sobre o estudo da OEB, que mostra que o aumento de produtividade provocado pela utilização da arbolina no agronegócio pode chegar até 12% do PIB brasileiro, o sócio fundador da Krilltech Marcelo Rodrigues considera que o impacto pode ser muito maior, uma vez que a projeção foi feita considerando quatro culturas: de soja, milho, algodão e cana.

“Isso é importante para o país pois se trata de uma injeção na economia de recursos da ordem de R$ 140 bilhões, e tudo isso a curto e médio prazo. De acordo com nossa expectativa de expansão, em três, quatro anos, estaremos alcançando o auge do mercado brasileiro”, projeta.

Para se ter uma dimensão, Rodrigues cita o caso de um produtor com 500 hectares de soja que teria um incremento de 12% de produtividade, sendo preciso apenas 800 ml da arbolina. “Um produtor de 1 hectare de tomate, que tem alto valor agregado, pode ter um aumento de cerca de 1.800 caixas, o que lhe renderia quase R$ 100 mil”, exemplifica.

Uma preocupação dos idealizadores da Krilltech é atender também a agricultura familiar, para que o pequeno produtor possa aumentar sua capacidade produtiva no campo, contribuindo para uma balança comercial positiva. “Não adianta ter um biofertilizante caro, de alta tecnologia, mas que vai onerar e não ser acessível a todos que dependem do campo para seu sustento. Afinal, são esses produtores de tomate, hortaliças, cenoura que levam a comida para a nossa mesa. É importante ter esse olhar e essa sensibilidade”, destaca Marcelo Rodrigues.

Sobre a possibilidade de perdas produtivas, como a arbolina aumenta o desempenho da planta em condições adversas, há uma redução de risco, especialmente para o produtor que trabalha com exportações. “Em locais onde se tem um intervalo climático, ocorrem quedas de safra por conta da seca ou estresse hídrico. Com isso, o uso do nosso produto impacta economicamente todo o processo de movimentação de recursos”, menciona o pesquisador do IQ.

Diante de toda essa magnitude, Marcelo Rodrigues compartilha que está se encaminhando a criação de uma nova operação financeira, que vai influenciar muitos setores ligadas ao agronegócio, tais como preço de seguro e de terra em regiões onde não tem chuva bem definida. Além disso, áreas que antes estavam inutilizadas poderão ser interessantes para cultivo de grãos, por exemplo.

“A partir do momento que o olhar do cientista sai do laboratório e passa a enxergar problemas e soluções relevantes para o país, podemos chegar nesse nível de impacto”, acredita Marcelo Rodrigues. Foto: Arquivo pessoal

EXPANSÃO – No momento, está em processo a migração da unidade de produção intensiva na Bahia para o Cimatec Park, considerado o mais importante complexo de tecnologia e inovação da América Latina. “Com essa mudança, nossa produção de 1 milhão e 200 hectares/ano vai expandir para 20 milhões hectares/ano. Assim, conseguimos cobrir 40% de toda soja e milho do país, impactando o aumento do PIB”, acredita Rodrigues.

Há, atualmente, ensaios de soja com produtores em Mato Grosso, na Bahia, no Rio Grande do Sul e na região do Cerrado. A unidade no Cimatec será responsável pela produção do ativo, e vão ser criadas unidades de mistura e distribuição no país para melhorar a logística.

“Isso está abrindo possibilidade de criarmos unidades de mistura em outros países, como Estados Unidos, países árabes; inclusive já iniciamos negociações com alguns representantes dessas nações para instalações de tecnologia Krilltech”, completa.

Em paralelo, também está sendo vislumbrada a instalação de uma unidade fabril dentro da UnB, focada em agricultura orgânica e jardinagem. “Será uma unidade pequena, mas de grande produção e rendimento. É uma forma de incentivar outros professores e alunos, e também cria uma agenda positiva na instituição para avançar cada vez mais na inovação”, conclui sobre a importância de a empresa estar situada dentro da Universidade.

Fonte: http://noticias.unb.br

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