Nota do COE sobre o aumento de casos de dengue em Porto Alegre – UFCSPA

Nota do COE sobre o aumento de casos de dengue em Porto Alegre - UFCSPA

O Comitê Técnico de Informações Estratégicas e Respostas Rápidas à Emergência em Vigilância em Saúde Referente ao Coronavírus da UFCSPA (COE/UFCSPA) vem, através desta, alertar sobre a situação da dengue em nossa cidade. A nota traz aspectos relativos à condição atual da doença, características, cenário epidemiológico, sintomas e outros. O COE chama a atenção tanto para o aumento dos casos em decorrência da alta circulação de mosquitos em diversas zonas da cidade, quanto aos cuidados preventivos e o que fazer no caso de sintomas ou suspeita de dengue.

Características da doença e transmissão

A dengue caracteriza-se como uma doença infecciosa febril aguda, que pode evoluir para estado grave, dependendo de alguns fatores, como o sorotipo do vírus, reinfecção com outro sorotipo e fatores individuais, como a presença de doenças crônicas (diabetes, asma brônquica, anemia falciforme, etc.). São quatro os tipos de vírus (Den-1, Den-2, Den-3 e Den-4), caracterizando quatro “sorotipos” da doença. O vírus da dengue é um arbovírus (vírus transmitido por artrópodos – arthropod-borne vírus), transmitido por mosquitos do gênero Aedes, através da picada da fêmea. Duas espécies de Aedes transmitem a dengue, A. aegypti e, secundariamente, A. albopictus. Ressalta-se que não ocorre transmissão pelo contato direto com um doente ou suas secreções, nem pela ingestão de água ou alimento.

Aedes aegypt 


Foto: Pexels
O Aedes, que também é o transmissor da febre amarela, é menor que o mosquito comum (gênero Culex) e possui o corpo, a cabeça e patas com listras brancas e pretas. Os mosquitos vivem em torno de 30 dias e a fêmea chega a colocar de 150 a 200 ovos. Se forem postos por uma fêmea contaminada pelo vírus da dengue, os novos mosquitos-fêmeas serão capazes de transmitir a doença. Preferencialmente, os ovos são colocados na superfície de vasilhames contendo água “parada” como garrafas e latas vazias, calhas, caixas d’água descobertas, pneus vazios, pratos sob vasos de plantas ou qualquer outro objeto que possa armazenar água da chuva. Os ovos também podem ser colocados em “viveiros” naturais, como espaços entre as folhas de bromélias, bambus e espaços e sulcos em árvores. Por isso, uma das maneiras mais efetivas de controle é realmente não deixar água parada nesses recipientes e locais.

Sintomas, diagnóstico e tratamento

A pessoa picada pelo mosquito e infectada pelo vírus pode apresentar sintomas como febre alta (maior que 39ºC), dor no fundo dos olhos, dor de cabeça, dores pelo corpo, náuseas, coceiras ou até mesmo não apresentar qualquer sintoma clínico. É importante procurar orientação médica ao surgirem os primeiros sintomas, pois as manifestações iniciais podem ser confundidas com outras doenças, como febre amarela, malária ou leptospirose, ou até mesmo uma gripe forte ou Covid-19, e não servem para indicar o grau de gravidade da doença. Frequentemente, esse conjunto de sintomas determina a forma “benigna” da doença.

Por outro lado, o aparecimento de manchas vermelhas na pele (rash cutâneos ou exantema), sangramentos (nariz, gengivas), dor abdominal intensa e contínua e vômitos persistentes podem indicar um sinal de alarme para dengue hemorrágica. Esse é um quadro grave que necessita imediata atenção médica, pois pode ser fatal. Adicionalmente, as formas mais graves da doença podem manifestar-se com extravasamento de plasma, levando ao choque ou acúmulo de líquidos com desconforto respiratório, sangramento grave ou sinais de disfunção orgânica como o coração, os pulmões, os rins, o fígado e o sistema nervoso central, podendo ser fatal. Quando presentes, os sintomas duram em média sete dias, dependendo do estado de saúde da pessoa. Em geral, adultos saudáveis costumam se recuperar da doença em três dias. Os sintomas da dengue hemorrágica no início da doença são os mesmos da dengue comum, porém, a diferença ocorre, com maior frequência, quando acaba a febre e começam a surgir os sinais de alarme: dores abdominais fortes e contínuas; vômitos persistentes; pele pálida, fria e úmida; sangramento pelo nariz, boca e gengivas; sonolência, agitação e confusão mental; sede excessiva e boca seca; pulso rápido e fraco; dificuldade respiratória; perda de consciência.

Todos os quatro sorotipos de dengue podem produzir formas assintomáticas, leves ou graves (esta última, inclusive já na primeira infecção, mas sendo mais comum na reinfecção), incluindo fatais, e/ou febre hemorrágica. Mesmo a doença assintomática produz resposta imune contra o tipo viral que infectou a pessoa (20 a 50% dos casos), mas isso não significa que o indivíduo será novamente assintomático após nova infecção com outro subtipo do vírus. Assim, uma grande atenção deve ser dada a possibilidade de reinfecção, comum em áreas endêmicas onde há alta disseminação dos mosquitos, pois os sintomas serão predominantemente mais graves. Os sorotipos mais virulentos são o 2 e o 3. Até maio deste ano, o sorotipo 2, que é o mais disseminado no mundo, ainda não havia sido encontrado no Brasil; uma amostra coletada em novembro de 2021 foi recentemente identificada como positiva ao tipo 2 no estado de Goiás.

Recomenda-se a realização de diagnóstico diferencial com outras infecções como Chikungunya, Zica, influenza, sarampo, mononucleose infecciosa, infecção pelo HIV, febre amarela, malária, leptospirose ou Covid-19. A maioria dos casos de dengue é auto-limitado e somente uma pequena proporção evolui para doença grave. O diagnóstico e o prognóstico da dengue podem ser realizados na Unidade Básica de Saúde. O diagnóstico laboratorial da dengue é o mais indicado a ser feito na presença de sintomas ou suspeita. Ele pode ser obtido por isolamento direto do vírus no sangue nos três a cinco primeiros dias da doença ou por exames de sangue para detectar anticorpos contra o vírus (testes sorológicos). Em Porto Alegre, testes rápidos, que detectam o antígeno NS1 dos quatro sorotipos a partir do sangue estão disponíveis em algumas redes de farmácias e têm sensibilidade moderada. Adicionalmente, a prova do laço também é indicada nos casos de suspeita. A prova do laço (ou Rumpel-Leede) testa a fragilidade dos capilares e é indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O teste consiste na contagem de pontos vermelhos (petéquias) gerados no braço, durante a medição de pressão, insuflando-se o manguito e mantendo-o assim por cinco minutos.

Após o diagnóstico, o tratamento médico será feito e acompanhado de acordo com a evolução da doença. Ressalta-se que o teste diagnóstico deve ser feito ao início dos sintomas (1 – 3 dias) para que sejam evitados os desfechos mais graves. A hidratação oral (com água, soro caseiro, água de coco), ou venosa, dependendo da fase da doença, é fundamental e está indicada em todos os casos em abundância. Não devem ser utilizados medicamentos à base de ácido acetil salicílico e alguns antiinflamatórios, como aspirina e AAS, pois podem aumentar o risco de hemorragias.

Prevenção

A recuperação da infecção fornece imunidade vitalícia contra o sorotipo adquirido. Entretanto, a imunidade cruzada para os outros sorotipos após a recuperação é apenas parcial e temporária. A utilização, em saúde pública, de uma vacina segura e eficaz contra os quatro tipos de dengue é altamente desejável e traria um enorme avanço no controle da doença. Até o momento, apenas uma vacina contra a dengue está licenciada no mundo (Dengvaxia® – Sanofi-Pasteur), na rede privada, e deve ser aplicada somente em indivíduos previamente infectados (de acordo com recomendações da OMS), entre 9 e 45 anos de idade e em regime de 3 doses, intercalados por 6 meses. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil ainda não fez a opção de introdução dessa vacina em nosso programa público. Adicionalmente, outras duas vacinas tetravalentes estão em finalização de testes clínicos/solicitação de registro: a Farmacêutica Takeda solicitou registro da vacina TAK-003 (a ser utilizada em pessoas de 4 a 60 anos) à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em abril de 2021; o Instituto Butantan, em parceria com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), concluiu a fase III de uma vacina que mostrou soroconversão de 100% em pessoas previamente infectadas e 92,6% para não-infectados após uma única dose (população de 18 a 59 anos). As vacinas têm mostrado eficácias de 50 a 80% na prevenção e entre 85 e 90% contra hospitalizações e desenvolvimento da dengue hemorrágica. Em nossa universidade, o grupo de pesquisa em Imunoterapia, liderado pela Professora Cristina Bonorino, também participa do desenvolvimento de uma vacina contra a dengue.

Situação epidemiológica

Dados do InfoDengue relativos à primeira semana epidemiológica (SE) de maio, SE 18, em Porto Alegre apontam uma incidência de 4,4/100 mil habitantes. Nessa semana, de 3091 casos suspeitos de dengue entre moradores de Porto Alegre, 1852 (59,9%) foram confirmados e um óbito ocorreu. Até a SE 19 (02/01/2022 a 14/05/2022), foram notificados 3517 casos suspeitos de dengue entre moradores de Porto Alegre, dentre os quais 2008 (57,1%) foram confirmados. Esta ocorrência tem mantido os serviços de saúde da capital em alerta para que todos os casos sintomáticos, que atendam critérios de caso suspeito, sejam notificados e manejados clinicamente, evitando agravamentos e novos desfechos desfavoráveis.

Uma forma adicional de monitoramento da dengue pela secretaria de saúde municipal é feita através da detecção e contagem dos mosquitos-fêmeas em armadilhas distribuídas em todos os bairros da cidade. A condição de cada armadilha de monitoramento pode ser acompanhada em tempo-real (https://prefeitura.poa.br/sms/onde-esta-o-aedes). A detecção de mosquitos (Índice Médio de Fêmeas de A. aegypti – IMFA) em armadilhas espalhadas ao longo da cidade mostra que, na SE 18, por exemplo, 11 bairros da cidade de Porto Alegre mostraram-se com alta infestação de mosquitos, 11 em situação de alerta, 12 bairros com infestação moderada e 7 bairros com infestação baixa. Foram coletadas 386 fêmeas em 211 armadilhas, das 747 vistoriadas (equivalente a 28,24% de armadilhas positivas para a presença de fêmeas de Aedes). No Rio Grande do Sul, 443 municípios (89%) foram considerados infestados pelo mosquito. O número de casos contraídos dentro do Estado (chamados de autóctones) até o momento chegou a mais de 21 mil, com 27 óbitos registrados, o que já é superior ao dobro do total ocorrido em 2021 (11 óbitos).

Considerações finais

A incidência da dengue tem aumentado em torno de 30 vezes nos últimos 50 anos e o aquecimento global é um dos fatores para novos surtos. O COE/UFCSPA alerta sobre a necessidade de ações de mitigação e adaptação na comunidade, decorrente das mudanças climáticas que acarretam eventos extremos com mais frequência, como o aumento de risco de enchentes e ondas de calor, os quais ocorreram recentemente no nosso estado. Esses fatores contribuem para desequilíbrios ecológicos que podem acarretar, por exemplo, em maior proliferação de mosquitos nas áreas onde eles não eram comumente encontrados. Igualmente, o comitê alerta toda a comunidade para que se redobre os cuidados com relação a objetos em casa que podem reter água. A reciclagem, sempre que possível, é o destino correto de latas, garrafas, potes, pneus e qualquer outro tipo de objeto que possa servir como criadouro e pratos de vasos de plantas devem ser preenchidos com areia. Calhas devem ser limpas frequentemente, para a remoção de folhas, e caixas d’água devem permanecer tampadas. Com relação à picada do mosquito, que por vezes não é sentida devido a uma substância anestésica presente na saliva do Aedes, é recomendável o uso de repelentes. O uso de inseticidas, que é um produto químico, deve ser feito com muita atenção, protegendo os olhos e a pele e evitando sua inalação. Telas também podem auxiliar na barreira contra a entrada de mosquitos nas casas e apartamentos. Na presença de sintomas, procure um médico, pois o diagnóstico oportuno pode salvar vidas.

Fontes de consulta:

https://prefeitura.poa.br/sms/onde-esta-o-aedes

https://info.dengue.mat.br/alerta/4314902/dengue

https://saude.rs.gov.br/

https://mosquito.saude.es.gov.br/aedes-aedypti

http://www.cpqrr.fiocruz.br

https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/Imunizacoes_-_Vacinas_contra_dengue_-_atualizacao_.pdf

https://www.paho.org/pt/topicos/dengue

Fonte: https://www.ufcspa.edu.br

Más artículos de la Universidad

Deja un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada.

Suscríbete al Grupo Tordesillas​

Introduce tu email y recibirás las novedades del Grupo Tordesillas mensualmente en tu correo electrónico.

Ir arriba